terça-feira, 11 de junho de 2013

AS FÉRIAS E A VERDADE

Um dos fenómenos curiosos da nossa sociedade moderna é que voltou a aparecer o elemento nómada: cada verão é impressionante o número de pessoas que estão em filas intermináveis nas auto-estradas e nos aeroportos. Deveríamos pôr-nos uma pergunta: “porque isto acontece?” A resposta imediata é óbvia: todos estão a ir de férias. Mas dizer isso não é suficiente; não seria mau aproveitar para fazer uma pequena reflexão sobre um fenómeno que nos interessa a todos. Porque vamos de férias? Porque existe esta grande expectativa que nos enche de desejo de deixar as normais ocupações (trabalho, escola, mas também a cidade onde vivemos, etc.) para ir a outro lugar?


No século passado, durante uns trabalhos arqueológicos, em Timgad, na Algéria foi encontrada uma inscrição do tempo dos Romanos, que dizia: “Caçar, banhar-se (no mar), brincar, rir… esta é vida”. Mudando só alguns pormenores, estas palavras poderiam estar perfeitamente nos nossos lábios ou numa publicidade de um lugar de férias. Muitos entre nós sentem que os lugares onde normalmente vivem estão condenados a não nos dar a vida que desejamos, que até a impedem. A escola é aborrecida, o lugar de trabalho é triste e pouco suportável, a minha cidade é feia e gosto mais de praia; então partimos para as férias para sermos por fim livres, para viver, por fim.


Este desejo é bom e muito humano: depois de um largo tempo de trabalho merecemos também, um tempo de descanso e repouso. Feita esta premissa, temos de reconhecer que a nossa liberdade, a liberdade do tempo livre e do tempo das férias dá-nos um outro problema. Precisamente quando fazemos o que mais gostamos, percebemos que, no fundo, rir, brincar, banhar-se são coisas boas, mas ainda não são a vida. Muitas vezes organizar o nosso tempo livre não é tão fácil quanto parece e todos temos experiências de uma tristeza que nos alcança precisamente no momento em que tudo parece dizer o contrário, precisamente quando estamos a fazer o que temos esperado durante meses. Com os nossos filhos as coisas não são mais fáceis: se para eles brincar pode ser a ocupação de muitas horas do verão, temos de admitir que eles têm ao seu dispor uma quantidade enorme de tempo (as férias grandes da escola) e que, normalmente, uma boa parte deste tempo é desperdiçado, simplesmente a não fazer nada, com o aborrecimento que vem a seguir. 


Tempo de férias e tempo de liberdade. “Banhar-se (no mar), brincar, rir… esta é vida”. Mas isso não basta. O tempo livre deveria ser um tempo a disposição do homem para o homem. Sacrificar algumas das mil atividades que podemos ter programado para poder estar com os nossos amigos, encontra-los, sentarmo-nos com eles e contar-lhes a nossa vida…sim, isso supera infinitamente os minutos (ou horas) passadas a partilhar impressões e fotografias no Facebook. Uma cura infalível contra a tristeza é voltar a fazer experiência que tenho alguém que me quer e que aceita partilhar a sua vida comigo. Voltar a ter um pouco de coragem para desligar televisão ou videojogos e pôr nas mãos dos nossos filhos alguns livros: alguns autores (os grandes) que podem ser “amigos de papel” que os acompanham na descoberta de deles mesmos e da vida. 

O tempo livre é também (e ouso dizer: sobretudo) o tempo que nos é concedido para procurar a verdade. O caminho da catequese não termina com o Verão, simplesmente assume formas diferentes. Deus não vai de férias porque, se eu posso ir de férias, a minha vida nunca vai de férias. Se nos atrevêssemos a pensar que a paz da vida vem do facto de descobrirmos o que dá sentido à nossa vida, não seria um interessante desafio para viver (e ensinar a viver) este tempo como uma ocasião para crescer e não, simplesmente, como algo que acaba? 

Pe. Giovanni Musazzi